A Casa de Tortas do Hyde Park

Thomas Theodosius Forrest, 1728–1784, British, The Cheesecake House, Hyde Park, undated, Watercolor over graphite on medium, slightly textured, cream wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1986.29.525

A Cheesecake House foi uma construção dentro do Hyde Park estabelecida como um ponto comercial para que os visitantes pudessem desfrutar de iguarias e refrescos. Não se sabe ao certo em que data o edifício foi inaugurado, mas acredita-se que tenha pertencido ao reinado de Charles II (1660-1685) ou uma data anterior.

The Cheesecake House, Hyde Park. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection

A Cheesecake House ficava localizada ao norte do Serpentine, próxima ao The Ring (que conhecemos nesta postagem). O edifício era feito de madeira e gesso e contava com um telhado plano. Para ter acesso à porta de entrada, o visitante tinha de atravessar uma ponte de madeira de aspecto rudimentar.

Em 1993, a Royal Comission on Historical Monuments abriu uma investigação para tentar localizar algum indício da construção, mas nada foi encontrado. Porém, a existência da Cheesecake House é comprovada por inúmeros relatos de visitantes, pinturas e desenhos.

Samuel Pepys, (funcionário da administração naval inglesa, conhecido pelos fascinantes textos de seus diários e seus relatos como testemunha ocular de grandes eventos históricos), refere-se à casa de tortas em ao menos duas ocasiões:

Imagem de Samuel Pepys

3 de junho de 1668

“Ao Parque, onde há muita boa companhia e muitas belas damas; e eu estava em uma carruagem tão bonita que acredito que Sir W. Coventry e outros que me olhavam acharam que era minha, o que me incomodou um pouco; então fui para o Lodge e bebi um copo de leite fresco e retornei para casa”

3 de junho de 1668

“E, dali, tivemos outra reunião com o Duque de York, em White Hall, sobre o trabalho de ontem, e fiz um bom avanço: e assim, sendo chamados por minha esposa, fomos ao Park, Mary Batelier e um cavalheiro holandês, amigo dela, foram conosco. Dali para “O Fim do Mundo”, uma casa de bebidas perto do Park; e então nos divertimos, e voltamos tarde para casa”

No reinado da Rainha Anne (1707-1714), última monarca da dinastia Stuart a ocupar o trono, a casa de torta era conhecida apenas como “Cake House” ou “Minced-Pie House” (Casa de Tortas Picadas). Mais tarde, ficou conhecida como Price’s Lodge (Chalé do Price) – fontes indicam que o nome veio através de Gervase Price, chefe da guarda do Hyde Park.

Queen Anne, when Princess of Denmark, 1665 – 1714 – Jan van der VaardtDutch (1647 – 1721) Willem WissingDutch (1656 – 1687). Oil on canvas. National Galleries Scotland (https://www.nationalgalleries.org/art-and-artists/1738/0?overlay=download

No final do século XVII, a casa de tortas foi administrada pela viúva Frances Price.

Entre as iguarias que eram ofertadas na casa de tortas estavam as cheesecakes, os cremes doces, as tortas e syllabubs – um prato feito a partir do leite ou creme doce. Eles eram coalhados com uma mistura ácida de vinho ou cidra e foram bastante populares entre os séculos XVI e XIX. Por causa da sua consistência espessa, o syllabubs podia ser consumido com uma colher ou utilizado como cobertura. Quando o vinho era acrescentado em maior quantidade, obtinha-se um ponche doce e espumoso que era considerado como uma “bebida de senhoras”.

sylla

Em A Journey to London (1698), o Dr. William King (1663-1712) escreve sobre syllabubs:

“O St James’s Park é frequentado por gente de qualidade; que, se quiserem ter um ar melhor e mais livre, dirigem-se ao Hyde Park, onde há um caminho para as carruagens circularem; é perto da Sra. Price, onde há syllabubs incomparáveis”

A Sra. Price ainda era a proprietária quando um famoso duelo foi travado no Hyde Park por James Hamilton, 4º Duque de Hamilton e Charles Mohun, 4º Barão Mohun, em 12 de novembro de 1712, próximo à casa de tortas.

A carruagem de Lorde Mohun chegou a ser parada pelo guardião do Hyde Park para questionamento. Porém, o cavalheiro informou que eles apenas se dirigiam ao Price’s Lodge e foram liberados em seguida.

Mohun e seu padrinho, um oficial irlandês chamado George Macartney, desembarcaram da carruagem e pediram ao cocheiro para que caminhasse até a casa de tortas e solicitasse ao atendente, John Reynolds, o preparo de um “vinho queimado” (uma aguardente destilada feita de vinho ou de sumo de fruta fermentado) para quando retornassem.

Reynolds, acostumado às desculpas esfarrapadas de cavalheiros que apareciam no Hyde Park ao amanhecer, chegou a declarar que não prepararia o vinho queimado, pois “poucos eram os que chegavam lá tão cedo pela manhã sem a intenção de duelar”.

O duelo foi travado com espadas e os padrinhos se juntaram à disputa quando Hamilton e Mohun foram feridos.

Mohun foi ferido mortalmente, mas o Duque de Hamilton recebeu apenas um corte no braço – ao menos naquele momento.

Os relatos diferem, mas foi alegado que o Duque largou sua espada. Macartney, o padrinho de Mohun, teria se aproveitado da posição vulnerável de Hamilton dando-lhe um golpe fatal.

Diante da comoção, John Reynolds se aproximou e tentou ajudar o Duque a caminhar até a casa de tortas. No entanto, antes que chegassem à ponte, Hamilton disse que “não conseguia andar mais” e morreu no local.

Com os dois duelistas mortos, os padrinhos, Macartney e o coronel Hamilton, foram acusados ​​de homicídio culposo. Macartney fugiu para Hanover, mas Hamilton foi julgado e considerado culpado.

Em 1801, a Casa de Tortas passou a ser utilizada como casa de barcos e no século XIX foi totalmente demolida e a venda de refrescos no Hyde Park foi proibida, exceto quando uma feira era organizada. A proibição ocasionou inúmeras reclamações de visitantes insatisfeitos.

A situação perdurou por mais de cem anos até que, em 1º de abril de 1909, foi inaugurada a Ring Tea House, um edifício circular de estilo rústico georgiano, que passou a atender as exigências alimentícias dos frequentadores do parque.


Fontes

https://www.british-history.ac.uk/old-new-london/vol4/pp375-405
https://georgianera.wordpress.com/2018/09/18/the-cheesecake-house-in-hyde-park/
https://www.pepysdiary.com/

Imagens

1. Thomas Theodosius Forrest, 1728–1784, British, The Cheesecake House, Hyde Park, undated, Watercolor over graphite on medium, slightly textured, cream wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1986.29.525
2. The Cheesecake House, Hyde Park. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection.
3. The Cheesecake House, Hyde Park by Thomas Hearne, c.1795. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection
4. Samuel Pepys by John Hayls – National Portrait Gallery
5. Queen Anne, when Princess of Denmark, 1665 – 1714 – Jan van der VaardtDutch (1647 – 1721) Willem WissingDutch (1656 – 1687). Oil on canvas. National Galleries Scotland (https://www.nationalgalleries.org/art-and-artists/1738/0?overlay=download)
6. The Sense of Taste – Philippe Mercier, 1689 or 1691–1760 – Yale Center for British Art
7. The Hyde Park Cheesecake House sketched in 1776. Unknow artist
8. The Cheesecake House in Hyde Park by Paul Sandby, 1797. Royal Collection Trust
9. Depiction of the Hyde Park Cheesecake House by artist W. H. Knight (1823-1863)


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Um Passeio pelo Hyde Park – Rotten Row

Tendo transferido sua corte para o Palácio de Kensington, o Rei William III desejava uma maneira mais segura de viajar até as sedes do governo em Whitehall e Westminster. No final do século XVII, a rota utilizada era movimentada, porém, perigosa. Era comum que os cortesões do Rei enfrentassem salteadores — montados a cavalo ou a pé — nos horários de maior escuridão.

Em 1690, procurando garantir a própria segurança e a de seus súditos, William ordenou que a rota situada na borda sul do Hyde Park fosse iluminada com 300 lâmpadas à óleo. Sua requisição se transformou na primeira rodovia iluminada artificialmente da Grã-Bretanha.

Na imagem, a rota está identificada como The King’s Private Road

A rota ficou conhecida como Route du Roi, o equivalente francês para King’s Road (Estrada do Rei), que foi eventualmente decomposta em “Rotten Row”. Alguns etimologistas, no entanto, dizem que o nome Rotten deriva da época da Guerra Civil e teria uma origem militar (rotteran: reunir, misturar). Outra derivação é a Norman Ratten Row (via rotatória) que seria a forma como os cadáveres eram transportados para evitar as vias públicas.

No século XVIII, a Rotten Row se tornou um ponto de encontro popular para os londrinos da classe alta que desejavam exercitar suas montarias, especialmente nas tardes de finais de semana e ao meio-dia.

Durante os próximos 150 anos, a Rotten Row se transformou em um local da moda e ponto de encontro para amigos e familiares, tanto para a aristocracia quanto para as classes consideradas inferiores, especialmente durante a Revolução Industrial na era Vitoriana.

Alec-Tweedie nos mostra um panorama dos hábitos londrinos no final do século XIX e início do séc. XX em seu livro Hyde Park – It’s History and Romance, publicado em 1908:

“Quando criança, aos sete anos de idade, e durante dez anos depois, eu cavalgava com meu pai todas as manhãs às sete e meia em Rotten Row, voltando para o café da manhã para mudar meu trajes e ir para a escola; e por quase dez anos mais fiz o mesmo com meu marido, indo — em vez de ir para a escola, ao voltar — para a cozinha pedir o jantar. Meu conhecimento do Hyde Park, portanto, não é imaginário, mas real — muito real.”

Nos dias de hoje, a trilha de Rotten Row ainda é mantida como um local para passeio a cavalo com estábulos próximos para atender o público em geral.

Você se aventuraria em um passeio elegante — e quem sabe romântico — na trilha da Rotten Row?


Fontes

https://www.royalparks.org.uk/whats-on/blog/rotten-row
https://www.infoplease.com/dictionary/brewers/rotten-row
Hyde Park – It’s History and Romance – Alec Tweedie (1908)

Imagens

– View of men in top hats and tails riding horses in close quarters in a field in Hyde Park; in foreground to left four well-dressed people stroll by next to a small fence separating them from the riders. 1803 Etching and engraving © The Trustees of the British Museum
– Portrait of King William III – 1680s (Sir Godfrey Kneller Bt.)
– Ilustração Canva
– Hyde Park London from 1833 – Schmollinge map – Public Domain
– Thomas Blinks – Rotten Row – Public Domain
– Dandies in Rotten Row – The Metropolitan Museum of Art – William Heath (‘Paul Pry’)Thomas Tegg – 1819
– Rotten Row and Hyde Park Corner, London, England-LCCN2002696936
– Mrs Alec Tweedie 1862-1940), by Herbert Gustave Schmalz
– View in Hyde Park, showing the fashionably dressed men of the day assembling near the statue of Achilles, some on horseback, others on open landaus. 1834 Lithograph with hand-colouring © The Trustees of the British Museum


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Um Passeio pelo Hyde Park – Parte II

Na época da regência da Inglaterra, o Hyde Park era considerado como um lugar para ver e ser visto. Nesta postagem, iremos compreender sua importância através das palavras de alguém que vivenciou os tempos de glória deste fascinante parque londrino.

Os trechos a seguir foram retirados da publicação do The Picture of London, edição de 1813, do autor John Feltham.

“Uma das cenas mais deliciosas desta grande metrópole, e a que mais exibe sua opulência e esplendor, é a formada pela Sociedade no Hyde Park e no Kensington Gardens em dias de bom tempo, principalmente aos domingos, de fevereiro a junho.”

“Em um belo domingo, as amplas estradas de cascalho dentro do parque ficam cobertas de cavaleiros e carruagens das duas às cinco da tarde. Durante esse horário, uma trilha larga que vai do Hyde Park Corner à Kensington Gardens fica frequentemente tão lotada, com pessoas bem-vestidas passando ou voltando dos jardins, que é difícil prosseguir.”

Um típico domingo ensolarado no Hyde Park

“Um caminho nobre que se estende de norte a sul em Kensington Gardens, nos limites orientais, com suas vivazes companhias, completa este interessante cenário. Numerosas pessoas da moda, misturadas com uma grande multidão de pessoas bem-vestidas e de várias classes sociais, aglomeram-se neste caminho por muitas horas.

Antes que o visitante entre em Kensington Gardens, recomendamos que ele pare em algum ponto no Hyde Park onde seus olhos possam enxergar a imagem completa do parque composta por carruagens, cavaleiros e passageiros a pé — todos ansiosos para avançar em várias direções —, e a cena mais harmoniosa da Sociedade passeando nos jardins. Tal local se apresentará ao observador atento mais de uma vez enquanto ele caminha pelo parque; mas, talvez, o melhor lugar para esse fim seja o largo caminho ao pé da bacia do rio, que desemboca em um canal mais estreito.”

“Tomando o ar” no Hyde Park

“Foi calculado que 50.000 pessoas foram vistas “tomando o ar”, ao mesmo tempo, no Hyde Park e nos Jardins. Esta não é uma prática moderna, pois este local era igualmente utilizado há duzentos anos.”


Fontes

The Picture of London – John Feltham (1813)
https://www.regencyhistory.net/2018/01/hyde-park-in-regency-london.html

Imagens

Hyde Park, London – Claude Monet – 1871
The Entrance to Hyde Park on Sunday – Edward Pugh 1804
Artista Desconhecido – 1816 Taking the Air in Hyde Park!, c. 1816, Hand-colored etching, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1977.14.9715


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Mais do que um lugar da moda para ver e ser visto, o Hyde Park tem servido de palco para diversas cenas de romances ambientados na Inglaterra na época da Regência e na era Vitoriana. Quem não se lembra da passagem memorável em que Anthony Bridgerton cai no Serpentine depois de tentar salvar o Newton, cãozinho da patroa Kate?

Nesta série de postagens, irei comentar sobre a história e sobre as curiosidades do famoso parque londrino.

John Ferneley – William Massey Stanley driving his Cabriolet in Hyde Park – Google Art Project

As terras onde Hyde Park está situado foram adquiridas por Henrique VIII e pertencem a Westminster Abbey. Na época, as terras foram transformadas em um terreno de caça e só seriam abertas ao público em 1637 no reinado de Charles I, que foi o responsável pela construção de um caminho, chamado Ring, para que os membros da Corte Real pudessem passear com suas carruagens.

Paul Sandby RA, 1731–1809, British, The Gunpowder Magazine, Hyde Park, ca

Em 1730, a Rainha Charlotte fez um pedido a Charles Bridgeman, jardineiro Real, para que fizesse alterações na paisagem do Hyde Park. Acreditando que as despesas seriam arcadas com o dinheiro privado da Rainha, o Rei George II generosamente se absteve de interferir em seus esquemas. Somente após a morte da Rainha, em 1737, que o monarca descobriu que seu próprio dinheiro havia sido utilizado nesta e em outras melhorias do Hyde Park.

Pintura retratando um acampamento militar próximo ao Ring em 1780

Com as melhorias, o Ring, que estivera em voga por mais de um século e vira sua popularidade cair quando Newmarket foi transformado em um grande centro de corridas, foi removido para dar lugar a criação de um lago ornamental. O rio Westbourne — que naquela época formava ao longo do parque cerca de onze lagoas naturais — foi represado e originou, junto com o rio Tyburn, o que ficou conhecido como o Serpentine. Cerca de duas centenas de pessoas foram envolvidas no projeto e acredita-se que os custos da criação do famoso lago sinuoso do Hyde Park tenham sido modestos: apenas seis mil libras.

O Serpentine

De acordo com John Feltham no The Picture of London, em 1813 o Hyde Park funcionava diariamente das 6h até às 21h.

Todas os tipos de carruagens eram permitidas nas dependências do parque, exceto carruagens de aluguel ou diligências.

Cinco portões guardavam as entradas do parque: Cumberland-Gate, na extremidade oeste da rua Oxford; Grosvenor-Gate, na Park Lane; o portão na extremidade oeste de Piccadilly, chamado de Hyde Park Corner, e o portão próximo à entrada da vila de Kensington.

Cumberland Gate
Grosvenor Gate
Hyde Park Coner

Fontes

The Modern London – Richard Phillips (1804)
Hyde Park – It’s History and Romance – Alec Tweedie (1908)
The Picture of London – John Feltham (1813)
https://www.regencyhistory.net/2018/01/hyde-park-in-regency-london.html

Imagens

– Hyde Park – John Martin, 1789–1854, British, Hyde Park, ca. 1815, Oil on panel, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1993.30.18
– John_Ferneley_-_William_Massey tanley_driving_his_Cabriolet_in_Hyde_Park_-_Google_Art_Project
– The Serpentine, Hyde Park. Pintura atribuída a George Sidney Shepherd, 1784–1862. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B2001.2.92
– PAUL SANDBY (1731-1809) – View near the Ring in Hyde Park, looking towards Grosvenor Gate, during the Encampment 1780
– Paul Sandby RA, 1731–1809, British, The Gunpowder Magazine, Hyde Park, ca. 1793, Watercolor, pen and gray ink and graphite on medium, cream, moderately textured wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection
– View of Cumberland Gate, from within the park, looking out towards the buildings and streets beyond, a small lodge to the right of the gate. c.1820 Watercolour © The Trustees of the British Museum
– George Sidney Shepherd – Grosvenor Gate, Hyde Park, London (1784–1862)
– View of Hyde Park Corner, looking west, Apsley House on the right, a carriage waiting outside, elegantly dressed people on the pavement; illustration to the Picturesque Tour. 1800 Etching and aquatint © The Trustees of the British Museum


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