A Casa de Tortas do Hyde Park

Thomas Theodosius Forrest, 1728–1784, British, The Cheesecake House, Hyde Park, undated, Watercolor over graphite on medium, slightly textured, cream wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1986.29.525

A Cheesecake House foi uma construção dentro do Hyde Park estabelecida como um ponto comercial para que os visitantes pudessem desfrutar de iguarias e refrescos. Não se sabe ao certo em que data o edifício foi inaugurado, mas acredita-se que tenha pertencido ao reinado de Charles II (1660-1685) ou uma data anterior.

The Cheesecake House, Hyde Park. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection

A Cheesecake House ficava localizada ao norte do Serpentine, próxima ao The Ring (que conhecemos nesta postagem). O edifício era feito de madeira e gesso e contava com um telhado plano. Para ter acesso à porta de entrada, o visitante tinha de atravessar uma ponte de madeira de aspecto rudimentar.

Em 1993, a Royal Comission on Historical Monuments abriu uma investigação para tentar localizar algum indício da construção, mas nada foi encontrado. Porém, a existência da Cheesecake House é comprovada por inúmeros relatos de visitantes, pinturas e desenhos.

Samuel Pepys, (funcionário da administração naval inglesa, conhecido pelos fascinantes textos de seus diários e seus relatos como testemunha ocular de grandes eventos históricos), refere-se à casa de tortas em ao menos duas ocasiões:

Imagem de Samuel Pepys

3 de junho de 1668

“Ao Parque, onde há muita boa companhia e muitas belas damas; e eu estava em uma carruagem tão bonita que acredito que Sir W. Coventry e outros que me olhavam acharam que era minha, o que me incomodou um pouco; então fui para o Lodge e bebi um copo de leite fresco e retornei para casa”

3 de junho de 1668

“E, dali, tivemos outra reunião com o Duque de York, em White Hall, sobre o trabalho de ontem, e fiz um bom avanço: e assim, sendo chamados por minha esposa, fomos ao Park, Mary Batelier e um cavalheiro holandês, amigo dela, foram conosco. Dali para “O Fim do Mundo”, uma casa de bebidas perto do Park; e então nos divertimos, e voltamos tarde para casa”

No reinado da Rainha Anne (1707-1714), última monarca da dinastia Stuart a ocupar o trono, a casa de torta era conhecida apenas como “Cake House” ou “Minced-Pie House” (Casa de Tortas Picadas). Mais tarde, ficou conhecida como Price’s Lodge (Chalé do Price) – fontes indicam que o nome veio através de Gervase Price, chefe da guarda do Hyde Park.

Queen Anne, when Princess of Denmark, 1665 – 1714 – Jan van der VaardtDutch (1647 – 1721) Willem WissingDutch (1656 – 1687). Oil on canvas. National Galleries Scotland (https://www.nationalgalleries.org/art-and-artists/1738/0?overlay=download

No final do século XVII, a casa de tortas foi administrada pela viúva Frances Price.

Entre as iguarias que eram ofertadas na casa de tortas estavam as cheesecakes, os cremes doces, as tortas e syllabubs – um prato feito a partir do leite ou creme doce. Eles eram coalhados com uma mistura ácida de vinho ou cidra e foram bastante populares entre os séculos XVI e XIX. Por causa da sua consistência espessa, o syllabubs podia ser consumido com uma colher ou utilizado como cobertura. Quando o vinho era acrescentado em maior quantidade, obtinha-se um ponche doce e espumoso que era considerado como uma “bebida de senhoras”.

sylla

Em A Journey to London (1698), o Dr. William King (1663-1712) escreve sobre syllabubs:

“O St James’s Park é frequentado por gente de qualidade; que, se quiserem ter um ar melhor e mais livre, dirigem-se ao Hyde Park, onde há um caminho para as carruagens circularem; é perto da Sra. Price, onde há syllabubs incomparáveis”

A Sra. Price ainda era a proprietária quando um famoso duelo foi travado no Hyde Park por James Hamilton, 4º Duque de Hamilton e Charles Mohun, 4º Barão Mohun, em 12 de novembro de 1712, próximo à casa de tortas.

A carruagem de Lorde Mohun chegou a ser parada pelo guardião do Hyde Park para questionamento. Porém, o cavalheiro informou que eles apenas se dirigiam ao Price’s Lodge e foram liberados em seguida.

Mohun e seu padrinho, um oficial irlandês chamado George Macartney, desembarcaram da carruagem e pediram ao cocheiro para que caminhasse até a casa de tortas e solicitasse ao atendente, John Reynolds, o preparo de um “vinho queimado” (uma aguardente destilada feita de vinho ou de sumo de fruta fermentado) para quando retornassem.

Reynolds, acostumado às desculpas esfarrapadas de cavalheiros que apareciam no Hyde Park ao amanhecer, chegou a declarar que não prepararia o vinho queimado, pois “poucos eram os que chegavam lá tão cedo pela manhã sem a intenção de duelar”.

O duelo foi travado com espadas e os padrinhos se juntaram à disputa quando Hamilton e Mohun foram feridos.

Mohun foi ferido mortalmente, mas o Duque de Hamilton recebeu apenas um corte no braço – ao menos naquele momento.

Os relatos diferem, mas foi alegado que o Duque largou sua espada. Macartney, o padrinho de Mohun, teria se aproveitado da posição vulnerável de Hamilton dando-lhe um golpe fatal.

Diante da comoção, John Reynolds se aproximou e tentou ajudar o Duque a caminhar até a casa de tortas. No entanto, antes que chegassem à ponte, Hamilton disse que “não conseguia andar mais” e morreu no local.

Com os dois duelistas mortos, os padrinhos, Macartney e o coronel Hamilton, foram acusados ​​de homicídio culposo. Macartney fugiu para Hanover, mas Hamilton foi julgado e considerado culpado.

Em 1801, a Casa de Tortas passou a ser utilizada como casa de barcos e no século XIX foi totalmente demolida e a venda de refrescos no Hyde Park foi proibida, exceto quando uma feira era organizada. A proibição ocasionou inúmeras reclamações de visitantes insatisfeitos.

A situação perdurou por mais de cem anos até que, em 1º de abril de 1909, foi inaugurada a Ring Tea House, um edifício circular de estilo rústico georgiano, que passou a atender as exigências alimentícias dos frequentadores do parque.


Fontes

https://www.british-history.ac.uk/old-new-london/vol4/pp375-405
https://georgianera.wordpress.com/2018/09/18/the-cheesecake-house-in-hyde-park/
https://www.pepysdiary.com/

Imagens

1. Thomas Theodosius Forrest, 1728–1784, British, The Cheesecake House, Hyde Park, undated, Watercolor over graphite on medium, slightly textured, cream wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1986.29.525
2. The Cheesecake House, Hyde Park. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection.
3. The Cheesecake House, Hyde Park by Thomas Hearne, c.1795. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection
4. Samuel Pepys by John Hayls – National Portrait Gallery
5. Queen Anne, when Princess of Denmark, 1665 – 1714 – Jan van der VaardtDutch (1647 – 1721) Willem WissingDutch (1656 – 1687). Oil on canvas. National Galleries Scotland (https://www.nationalgalleries.org/art-and-artists/1738/0?overlay=download)
6. The Sense of Taste – Philippe Mercier, 1689 or 1691–1760 – Yale Center for British Art
7. The Hyde Park Cheesecake House sketched in 1776. Unknow artist
8. The Cheesecake House in Hyde Park by Paul Sandby, 1797. Royal Collection Trust
9. Depiction of the Hyde Park Cheesecake House by artist W. H. Knight (1823-1863)


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Um Passeio pelo Hyde Park – Rotten Row

Tendo transferido sua corte para o Palácio de Kensington, o Rei William III desejava uma maneira mais segura de viajar até as sedes do governo em Whitehall e Westminster. No final do século XVII, a rota utilizada era movimentada, porém, perigosa. Era comum que os cortesões do Rei enfrentassem salteadores — montados a cavalo ou a pé — nos horários de maior escuridão.

Em 1690, procurando garantir a própria segurança e a de seus súditos, William ordenou que a rota situada na borda sul do Hyde Park fosse iluminada com 300 lâmpadas à óleo. Sua requisição se transformou na primeira rodovia iluminada artificialmente da Grã-Bretanha.

Na imagem, a rota está identificada como The King’s Private Road

A rota ficou conhecida como Route du Roi, o equivalente francês para King’s Road (Estrada do Rei), que foi eventualmente decomposta em “Rotten Row”. Alguns etimologistas, no entanto, dizem que o nome Rotten deriva da época da Guerra Civil e teria uma origem militar (rotteran: reunir, misturar). Outra derivação é a Norman Ratten Row (via rotatória) que seria a forma como os cadáveres eram transportados para evitar as vias públicas.

No século XVIII, a Rotten Row se tornou um ponto de encontro popular para os londrinos da classe alta que desejavam exercitar suas montarias, especialmente nas tardes de finais de semana e ao meio-dia.

Durante os próximos 150 anos, a Rotten Row se transformou em um local da moda e ponto de encontro para amigos e familiares, tanto para a aristocracia quanto para as classes consideradas inferiores, especialmente durante a Revolução Industrial na era Vitoriana.

Alec-Tweedie nos mostra um panorama dos hábitos londrinos no final do século XIX e início do séc. XX em seu livro Hyde Park – It’s History and Romance, publicado em 1908:

“Quando criança, aos sete anos de idade, e durante dez anos depois, eu cavalgava com meu pai todas as manhãs às sete e meia em Rotten Row, voltando para o café da manhã para mudar meu trajes e ir para a escola; e por quase dez anos mais fiz o mesmo com meu marido, indo — em vez de ir para a escola, ao voltar — para a cozinha pedir o jantar. Meu conhecimento do Hyde Park, portanto, não é imaginário, mas real — muito real.”

Nos dias de hoje, a trilha de Rotten Row ainda é mantida como um local para passeio a cavalo com estábulos próximos para atender o público em geral.

Você se aventuraria em um passeio elegante — e quem sabe romântico — na trilha da Rotten Row?


Fontes

https://www.royalparks.org.uk/whats-on/blog/rotten-row
https://www.infoplease.com/dictionary/brewers/rotten-row
Hyde Park – It’s History and Romance – Alec Tweedie (1908)

Imagens

– View of men in top hats and tails riding horses in close quarters in a field in Hyde Park; in foreground to left four well-dressed people stroll by next to a small fence separating them from the riders. 1803 Etching and engraving © The Trustees of the British Museum
– Portrait of King William III – 1680s (Sir Godfrey Kneller Bt.)
– Ilustração Canva
– Hyde Park London from 1833 – Schmollinge map – Public Domain
– Thomas Blinks – Rotten Row – Public Domain
– Dandies in Rotten Row – The Metropolitan Museum of Art – William Heath (‘Paul Pry’)Thomas Tegg – 1819
– Rotten Row and Hyde Park Corner, London, England-LCCN2002696936
– Mrs Alec Tweedie 1862-1940), by Herbert Gustave Schmalz
– View in Hyde Park, showing the fashionably dressed men of the day assembling near the statue of Achilles, some on horseback, others on open landaus. 1834 Lithograph with hand-colouring © The Trustees of the British Museum


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Um Passeio pelo Hyde Park – Parte II

Na época da regência da Inglaterra, o Hyde Park era considerado como um lugar para ver e ser visto. Nesta postagem, iremos compreender sua importância através das palavras de alguém que vivenciou os tempos de glória deste fascinante parque londrino.

Os trechos a seguir foram retirados da publicação do The Picture of London, edição de 1813, do autor John Feltham.

“Uma das cenas mais deliciosas desta grande metrópole, e a que mais exibe sua opulência e esplendor, é a formada pela Sociedade no Hyde Park e no Kensington Gardens em dias de bom tempo, principalmente aos domingos, de fevereiro a junho.”

“Em um belo domingo, as amplas estradas de cascalho dentro do parque ficam cobertas de cavaleiros e carruagens das duas às cinco da tarde. Durante esse horário, uma trilha larga que vai do Hyde Park Corner à Kensington Gardens fica frequentemente tão lotada, com pessoas bem-vestidas passando ou voltando dos jardins, que é difícil prosseguir.”

Um típico domingo ensolarado no Hyde Park

“Um caminho nobre que se estende de norte a sul em Kensington Gardens, nos limites orientais, com suas vivazes companhias, completa este interessante cenário. Numerosas pessoas da moda, misturadas com uma grande multidão de pessoas bem-vestidas e de várias classes sociais, aglomeram-se neste caminho por muitas horas.

Antes que o visitante entre em Kensington Gardens, recomendamos que ele pare em algum ponto no Hyde Park onde seus olhos possam enxergar a imagem completa do parque composta por carruagens, cavaleiros e passageiros a pé — todos ansiosos para avançar em várias direções —, e a cena mais harmoniosa da Sociedade passeando nos jardins. Tal local se apresentará ao observador atento mais de uma vez enquanto ele caminha pelo parque; mas, talvez, o melhor lugar para esse fim seja o largo caminho ao pé da bacia do rio, que desemboca em um canal mais estreito.”

“Tomando o ar” no Hyde Park

“Foi calculado que 50.000 pessoas foram vistas “tomando o ar”, ao mesmo tempo, no Hyde Park e nos Jardins. Esta não é uma prática moderna, pois este local era igualmente utilizado há duzentos anos.”


Fontes

The Picture of London – John Feltham (1813)
https://www.regencyhistory.net/2018/01/hyde-park-in-regency-london.html

Imagens

Hyde Park, London – Claude Monet – 1871
The Entrance to Hyde Park on Sunday – Edward Pugh 1804
Artista Desconhecido – 1816 Taking the Air in Hyde Park!, c. 1816, Hand-colored etching, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1977.14.9715


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Um Passeio pelo Hyde Park – Parte I

Mais do que um lugar da moda para ver e ser visto, o Hyde Park tem servido de palco para diversas cenas de romances ambientados na Inglaterra na época da Regência e na era Vitoriana. Quem não se lembra da passagem memorável em que Anthony Bridgerton cai no Serpentine depois de tentar salvar o Newton, cãozinho da patroa Kate?

Nesta série de postagens, irei comentar sobre a história e sobre as curiosidades do famoso parque londrino.

John Ferneley – William Massey Stanley driving his Cabriolet in Hyde Park – Google Art Project

As terras onde Hyde Park está situado foram adquiridas por Henrique VIII e pertencem a Westminster Abbey. Na época, as terras foram transformadas em um terreno de caça e só seriam abertas ao público em 1637 no reinado de Charles I, que foi o responsável pela construção de um caminho, chamado Ring, para que os membros da Corte Real pudessem passear com suas carruagens.

Paul Sandby RA, 1731–1809, British, The Gunpowder Magazine, Hyde Park, ca

Em 1730, a Rainha Charlotte fez um pedido a Charles Bridgeman, jardineiro Real, para que fizesse alterações na paisagem do Hyde Park. Acreditando que as despesas seriam arcadas com o dinheiro privado da Rainha, o Rei George II generosamente se absteve de interferir em seus esquemas. Somente após a morte da Rainha, em 1737, que o monarca descobriu que seu próprio dinheiro havia sido utilizado nesta e em outras melhorias do Hyde Park.

Pintura retratando um acampamento militar próximo ao Ring em 1780

Com as melhorias, o Ring, que estivera em voga por mais de um século e vira sua popularidade cair quando Newmarket foi transformado em um grande centro de corridas, foi removido para dar lugar a criação de um lago ornamental. O rio Westbourne — que naquela época formava ao longo do parque cerca de onze lagoas naturais — foi represado e originou, junto com o rio Tyburn, o que ficou conhecido como o Serpentine. Cerca de duas centenas de pessoas foram envolvidas no projeto e acredita-se que os custos da criação do famoso lago sinuoso do Hyde Park tenham sido modestos: apenas seis mil libras.

O Serpentine

De acordo com John Feltham no The Picture of London, em 1813 o Hyde Park funcionava diariamente das 6h até às 21h.

Todas os tipos de carruagens eram permitidas nas dependências do parque, exceto carruagens de aluguel ou diligências.

Cinco portões guardavam as entradas do parque: Cumberland-Gate, na extremidade oeste da rua Oxford; Grosvenor-Gate, na Park Lane; o portão na extremidade oeste de Piccadilly, chamado de Hyde Park Corner, e o portão próximo à entrada da vila de Kensington.

Cumberland Gate
Grosvenor Gate
Hyde Park Coner

Fontes

The Modern London – Richard Phillips (1804)
Hyde Park – It’s History and Romance – Alec Tweedie (1908)
The Picture of London – John Feltham (1813)
https://www.regencyhistory.net/2018/01/hyde-park-in-regency-london.html

Imagens

– Hyde Park – John Martin, 1789–1854, British, Hyde Park, ca. 1815, Oil on panel, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B1993.30.18
– John_Ferneley_-_William_Massey tanley_driving_his_Cabriolet_in_Hyde_Park_-_Google_Art_Project
– The Serpentine, Hyde Park. Pintura atribuída a George Sidney Shepherd, 1784–1862. Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection, B2001.2.92
– PAUL SANDBY (1731-1809) – View near the Ring in Hyde Park, looking towards Grosvenor Gate, during the Encampment 1780
– Paul Sandby RA, 1731–1809, British, The Gunpowder Magazine, Hyde Park, ca. 1793, Watercolor, pen and gray ink and graphite on medium, cream, moderately textured wove paper, Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection
– View of Cumberland Gate, from within the park, looking out towards the buildings and streets beyond, a small lodge to the right of the gate. c.1820 Watercolour © The Trustees of the British Museum
– George Sidney Shepherd – Grosvenor Gate, Hyde Park, London (1784–1862)
– View of Hyde Park Corner, looking west, Apsley House on the right, a carriage waiting outside, elegantly dressed people on the pavement; illustration to the Picturesque Tour. 1800 Etching and aquatint © The Trustees of the British Museum


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Danças Populares do Século XIX

Ladies, preparem os sapatos de baile e venham conhecer algumas das danças mais populares do século XIX!

Valsa – A tradicional dança e talvez a mais conhecida. Bastante aguardada pelos casais apaixonados, pois era a oportunidade perfeita – e aceitável – para estarem juntinhos.

Galope – Nomeada a partir dos galopes dos cavalos. É uma animada dança campestre. A posição dos parceiros é similar ao da valsa.

Polka – Outra animada dança que foi introduzida nos salões de baile após as guerras napoleônicas.

Chotiça – É uma espécie de polka, mas com passos mais lentos.

Mazurka – Uma dança tradicional de origem polaca.


Tinderbox

Em uma das cenas de Até o Último Amanhecer um dos personagens menciona uma caixinha de estanho que costuma guardar no bolso. Tais caixinhas eram conhecidas como tinderbox. Em nosso idioma não consegui encontrar uma palavra que melhor descrevesse essa “caixinha”. Talvez uma pederneira portátil? 🤔

Mas, afinal, o que era uma tinderbox?

Fabricada em madeira ou metal, essa caixinha guardava em seu interior pedaços de pederneira (sílex), aço, enxofre e um pavio que geralmente era confeccionado em linho, juta ou algodão.

Tinderbox – Uma versão moderna dos nossos isqueiros

Se você pressionasse o aço de encontro a pederneira, próximo ao pavio…

VOILÀ!

Você criaria um fogo de respeito para o seu charuto ou quem sabe se aventurasse a acender uma lareira.

Para extinguir o fogo bastava fechar a caixinha. Prático, não é mesmo?

As tinderboxes foram bastante utilizadas no período georgiano até serem substituídas gradualmente por uma versão primitiva dos fósforos — uma invenção do químico John Walker em 1826, mas que seria vendida apenas em 1827 em seu estabelecimento em  Stockton-on-Tees sob o nome de Congreves.

Walker foi alertado para que patenteasse sua invenção, mas decidiu não dar ouvidos aos conselhos recebidos, tornando-a acessível a qualquer pessoa.

Como resultado, Samuel Jones lançou uma cópia exata dos experimentos de Walker a qual batizou de “Lucifers” em 1829.

O reconhecimento de Walker como o inventor dos fósforos veio somente após a sua morte em 1859.


Fontes

https://isabellaalden.com/2014/04/11/light-the-lucifer/
http://www.bbc.co.uk/ahistoryoftheworld/objects/hQR9oN5LTeCLcuKfPDMJ9
https://georgianera.wordpress.com/2016/11/08/guest-post-by-laurie-benson-from-a-spark-to-a-flame/


Almack’s

Ilustração por George Cruikshank

Se pudéssemos citar um lugar conhecido por qualquer leitora de romance de época este seria o Almack’s.

Frequentar seus renomados salões era um dos principais objetivos das famílias aristocráticas que desejavam estar no centro das atenções da Ton.

Fundado pelo escocês William Macall, sendo o nome Almack’s derivado das sílabas de seu próprio sobrenome, o clube original foi estabelecido na St. James Street em 1763 como um local de apostas e jogos de cartas.

Em 20 de fevereiro de 1765, Macall comissionou um espaço na King Street. Por 10 guinéus, era possível desfrutar dos três salões disponíveis onde bailes e jantares eram servidos uma vez por semana durante a temporada social. Em seus anos iniciais, o Almack’s fornecia um espaço para que as mulheres da aristocracia pudessem se encontrar para jogar cartas.

Fachada do Almack’s – Artista desconhecido. Museum of London (1800)

Em 1781, a sobrinha de Macall herdou o prédio. Ao lado do marido, Willis, criou um dos locais mais disputados de Londres em uma época na qual o prestígio social ditava as regras. Para manter a imagem de exclusividade do Almack’s, estabeleceram um comitê formado por damas bem-nascidas, as chamadas patronesses, que eram responsáveis por administrar os vouchers de acesso dos suntuosos salões de colunas douradas. A lista dos afortunados favorecidos jamais ultrapassava a marca de duzentos membros.

Almack’s Assembly RoomsWilliam Heath 1795-1840 – Fonte: New York Public Library

Apesar da comida insossa oferecida (limonada sem graça era uma triste realidade) e das danças muito bem regulamentadas e vigiadas (nada de toques indevidos e proximidades entre os parceiros), ser agraciado com um voucher era um dos pontos altos da vida em sociedade e motivo de grandes expectativas para as mães casamenteiras, visto que os melhores partidos eram encontrados nos salões do Almack’s. As reuniões aconteciam às quartas-feiras, seguindo o descanso semanal do Parlamento, para que os nobres cavalheiros pudessem comparecer.

Voucher do Almack’s utilizado na temporada de 1817 pela Marquesa de Buckingham
© The Huntington Library, San Marino, CA

As patronesses do Almack’s eram reconhecidamente arbitrárias em suas avaliações e escolhas. Ser bem nascido ou possuir uma imensa fortuna não garantia ter o nome incluído na lista de membros. Geralmente, o comitê avaliava a beleza dos interessados, a inteligência, o refinamento e aptidões para a dança.

Ser convidado a frequentar os seletos salões em uma temporada não significava ser escolhido na próxima. Também era comum que fosse liberada a entrada de uma lady, mas não a de seu marido e vice-versa. Uma ofensa direcionada a qualquer uma das patronesses poderia resultar em banimento definitivo.

Após obter os vouchers e adquirir os tickets de entrada, os novos membros eram obrigados a seguir regras estritas de comportamento e códigos de vestimenta.

Nem mesmo o Duque de Wellington, com toda a influência e poder que possuía na corte, escapou das rigorosas normas impostas pelas ladies do Almack’s. Foi impedido de adentrar os salões em duas ocasiões: em uma noite ao chegar após o horário do fechamento das portas, que ocorria religiosamente às onze da noite, e outra por não utilizar o modelo de calça considerado adequado pelas patronesses.

Acreditem se quiser: o famoso duque, que liderou as maiores campanhas militares contra as forças de Napoleão Bonaparte, foi barrado por uma singela calça pantalona!

Pantalonas? Não!

Fonte

Georgette Heyer’s Regency World – Jennifer Kloester

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As Patronesses do Almack’s

Os Vouchers do Almack’s


As Patronesses do Almack’s

Em minha postagem anterior, conhecemos alguns aspectos do exclusivo Almack’s (você pode ler a postagem clicando aqui). Ter aprovação para frequentar os seus nobres salões conferia um enorme prestígio perante a sociedade e seus elevados padrões.

As patronesses do Almack’s possuíam grande influência na Ton e eram as responsáveis por selecionar os candidatos que desejavam frequentar o local que, na época, era considerado como um dos mais badalados.

No período da regência da Inglaterra, não mais do que seis ou sete mulheres influentes formavam o comitê das patronesses. Nos tempos áureos, a formação era constituída por cinco damas inglesas e duas mulheres estrangeiras que conheceremos a seguir.

Lady Jersey – A Patronesse mais Exigente

imagem de lady jersey
Lady Sarah Sophia Fane, Condessa de Jersey. Pintura por Alfred Edward Chalon


Nascida Lady Sarah Sophia Fane, era filha do décimo conde de Westmorland. Casou-se com o Visconde Villiers, vindo a se tornar uma condessa após o marido herdar o título de quinto Conde de Jersey. Sua sogra, Frances, era famosa por ter sido amante do Príncipe de Wales, que mais tarde seria conhecido como o Príncipe Regente por assumir as rédeas do trono da Inglaterra devido a incapacidade mental do Rei George III.

Lady Jersey faz uma breve aparição em meu último lançamento, Até o Último Amanhecer. Como explicado em minha obra, a condessa ganhou o apelido nada lisonjeiro — e totalmente irônico — de Silence (silêncio) por conta de seu hábito de falar pelos cotovelos. Também era conhecida como Queen Sarah devido a sua grande influência e por ser a herdeira da considerável fortuna de seu avô.

A condessa não era vista como uma das beldades de sua época. Em contrapartida, era admirada por sua inteligência e energia. Possuía um senso de humor que era descrito como aguçado. Para alguns, era vista como rude e mal-educada, com grandes doses de dramaticidade a permear suas aparições na sociedade.

Lady Jersey era conhecida por seus esforços em manter a exclusividade do Almack’s e por ser rigorosa no cumprimento das regras estabelecidas. Nos disputados salões, admitia somente aqueles que demonstrassem extraordinárias aptidões para a dança (pobre Olivia!).

É creditada por ter introduzido a quadrilha no Almack’s em 1815.


Lady Sefton – A Patronesse mais Gentil

Maria Margaret Craven, filha do sexto barão Craven, tornou-se a Condessa de Sefton ao contrair matrimônio com um famoso dândi, William Philip Molyneux, Lorde Sefton. Seu marido era um amigo próximo do Príncipe Regente e entrou para a história ao fundar, em 1836, a Waterloo Cup, competição em que cães de caça perseguiam lebres. O famoso evento continuou a atrair expectadores até o ano de 2004. Em 2005, entrou em vigor uma lei na Inglaterra que proibia a caçada de animais mamíferos selvagens.

waterloo cup
Waterloo Cup – Ilustração por The Graphic, volume XXVII, no 691, 24 de fevereiro de 1883

Lorde e Lady Sefton eram notáveis anfitriões da época e contavam com um amplo círculo de amizades. Gostavam de bailes, idas ao teatro e de assistir a ópera.

Lady Sefton era descrita como uma pessoa acessível e de amável disposição.

Nota: Infelizmente, não é possível encontrar nenhuma imagem de Lady Sefton.


Lady Cowper – A Patronesse mais Popular

Emily Lamb, Condessa Cowper por William Owen – 1810

Emily Lamb, irmã de Lorde Melbourne, que se tornaria por duas vezes Primeiro-Ministro da Inglaterra e mentor da Rainha Vitória, transformou-se em uma condessa ao casar-se com o quinto Conde Cowper, aos dezoito anos de idade.

Era admirada por sua sagacidade, tato e afabilidade. Era ela quem acalmava os desentendimentos entre as demais patronesses e quem gentilmente aceitava uma nova debutante nos círculos sociais.

Por anos, Emily manteve um relacionamento fora do casamento com Lorde Palmerston. Após a morte de seu marido, casou-se com o amante em 1839.


Lady Castlereagh – A Patronesse mais Elegante

Lady Amelia (Emily) Anne Hobart, Viscondessa Castlereagh, Marquesa de Londonderry (1772-1829). Sir Thomas Lawrence, PRA (Bristol 1769 ? Londres 1830)

Nascida Lady Amelia Anne “Emily” Hobart, era herdeira do segundo Conde de Buckinghamshire. Casou-se com o líder da Câmara dos Comuns, Visconde Castlereagh, importante figura diplomática durante as últimas campanhas das Guerras Napoleônicas. Apesar da devoção que sentiam um pelo outro, o casal não teve filhos.

Lady Castlereagh costumava acompanhar o marido em suas viagens diplomáticas e foi duramente acusada de esconder a real condição do estado mental de Lorde Castlereagh após seu trágico suicídio em 1822.

Ficou conhecida por assegurar que as portas do Almack´s fechassem, sem exceção, às onze da noite. Não era tão poderosa quanto Lady Jersey ou Lady Cowper, mas ganhar sua aprovação significava plena aceitação na Ton.


Clementina Drummond-Burrell – A Patronesse mais Difícil de Agradar

Em 1807, com a idade de vinte e um anos, Sarah Clementina casou-se com um dândi de grandes aspirações políticas, Peter Robert Burrell. Era filha de James Drummond, Lorde Perth. Com a morte de seu pai, herdou uma considerável fortuna e propriedades em Perthshire. Sua família era conhecida por ter sido leal a causa jacobita. Após o levante em 1715, os títulos e propriedades foram tomados. O pai de Clementina foi o responsável por reaver as propriedades da família e, em 1797, ganhou o título de primeiro Lorde Perth e de Barão Drummond de Stobhall pelo Rei George III.

Clementina era conhecida por sua altivez e por manter distância de todos que considerava como socialmente inaceitáveis, sendo considerada como a patronesse mais difícil de agradar. Em sociedade, mostrava um comportamento frio e desdenhoso, que só era abrandado quando estava acompanhada por pessoas de seu círculo de amizade.

Nota: Não foi possível encontrar nenhuma imagem de Clementina. A ilustração comumente associada a ela é na realidade sua sogra, Lady Willoughby de Eresby.


Condessa Lieven – A Patronesse mais Arrogante

Condessa Lieven. Pintura atribuída a George Henry Harlow, 1814

Katharina Alexandra Dorothea von Lieven, nasceu em Riga, no antigo império russo. De família nobre, aos quinze anos casou-se com o tenente-general Christoph Heinrich Fürst von Lieven, que mais tarde receberia o título de Príncipe.

Em 1812, Christoph foi apontado como embaixador russo na corte de St. James. Katharina, ou Dorothea como era conhecida, abusou de seu charme e carisma quando se estabeleceram em Londres, tornando-se rapidamente uma figura de destaque na sociedade. Entre seus amigos, encontravam-se notáveis líderes políticos como o Duque de Wellington, George Canning e Conde Grey.

Era vista como uma pessoa determinada, esperta, altiva e arrogante. O grande senso de importância que atribuía a si mesma conferia-lhe um ar de superioridade. Era implacável ao excluir qualquer pessoa que não tivesse sua aprovação.

Foi a responsável por apresentar a valsa russa no Almack’s por volta de 1813.


Princesa Esterhazy – A Patronesse mais Jovem

Princessa Esterhazy por Holmes, 1835

Sobrinha da Rainha Charlotte, a Princesa Theresa de Thurn e Taxis da Alemanha, casou-se com o Príncipe Paul III Anton Esterhazy da Áustria, que viria a se tornar embaixador na Inglaterra em 1815.

Sua importante posição na Ton deveu-se mais ao papel de seu marido como embaixador — e de sua própria atuação e influência como uma das patronesses do Almack’s — do que por suas conexões com a família real inglesa.

A princesa era descrita como uma dama bonita, baixinha e um tanto quanto roliça. Sua personalidade era vivaz e cativante, e tinha verdadeiro desdém pelos chamados alpinistas sociais.


Fontes

Georgette Heyer’s Regency World – Jennifer Kloester
candicehern.com
https://laurengilbertheyerwood.wordpress.com/2013/01/01/the-infamous-mrs-drummond-burrell/

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Os Vouchers do Almack’s


Os Vouchers do Almack’s

Vocês já se perguntaram sobre a aparência de um voucher do Almack’s? Em minhas pesquisas para o livro Até o Último Amanhecer, deparei-me com a imagem abaixo:

A relíquia, datada em abril de 1817, foi exibida em uma exposição realizada em 2011 (Revisiting the Regency: England, 1811-1821) e faz parte de um acervo sob a curadoria da Huntington Library de San Marino, na Califórnia.

O voucher do Almack’s era um pedaço de papel disputadíssimo na época da Regência e apenas os que ganhassem a aprovação das exigentes patronesses eram agraciados com a honraria de frequentar os salões. O da foto pertenceu a Marquesa de Buckingham, Anna Elizabeth Temple-Nugent-Brydges-Chandos-Grenville, que mais tarde se tornaria a Duquesa de Buckingham e Chandos.

Confeccionado em um tipo de papel grosso, o voucher tinha aproximadamente 6,25 cm por 8,75 cm, medidas parecidas a de um cartão de visitas. Era o tamanho ideal para que uma dama pudesse guardá-lo em sua retícula.

No verso do voucher é possível ler as palavras “Pall Mall”. Uma das especulações a respeito é que este seria o local onde a então Marquesa estaria vivendo no ano de 1817

Um Casamento de Conveniência

O casamento de Anna foi arranjado quando ela tinha apenas seis anos de idade. Eradesejo de seus pais que se casasse com o garoto que se tornaria o primeiro Duque de Buckingham e Chandos. Seu marido, Richard, era um homem ganancioso e extravagante com uma forte tendência a envolver-se em escândalos e disputas e a acumular débitos por onde passava. Em 1822, Anna o obrigou a fazer um reassentamento a seu favor depois que ele vendeu as terras do acordo de casamento para saldar suas dívidas.

Os esforços da Duquesa para salvar a família da bancarrota mostraram-se eficientes. Entretanto, onze anos após a sua morte, seu filho acabou por seguir os passos perdulários do pai, o que culminou com a quebra das finanças da família em 1847.


Fonte

https://www.regencyhistory.net/…/a-genuine-almacks-voucher.…

Imagens

https://hdl.huntington.org/…/collection/p15150coll7/id/1067
http://www.thepeerage.com/e8815.htm – Public Domain
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=52929389


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